Os acordos comerciais entre o Brasil e o México não afetam os Estados Unidos, destacou Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil.
O ministro das Relações Exteriores do Brasil definiu essa posição em uma carta dirigida a Jamieson Greer, chefe do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Isso ocorreu no âmbito de uma investigação em andamento sobre a Seção 301.
Acordos comerciais entre o Brasil e o México
Vieira argumentou que não se sustenta a sugestão do USTR de que as preferências tarifárias do Brasil incentivam a transferência da produção norte-americana para o México ou para a Índia.

A esse respeito, o ministro argumentou que se trata de uma hipótese totalmente especulativa. “Tal sugestão baseia-se em uma série de meras suposições sobre as decisões de localização das empresas, a disponibilidade e o abastecimento de insumos, o cumprimento das normas de origem e a medida em que os produtos acabados seriam efetivamente redirecionados para o Brasil em virtude dos acordos pertinentes”, afirmou.
Em sua opinião, a notificação norte-americana não apresenta provas concretas de que tal transferência de atividades para o exterior tenha ocorrido como consequência das preferências tarifárias do Brasil, muito menos de que tenha ocorrido em escala suficiente para constituir um ônus ou restrição ao comércio dos Estados Unidos.
O México e o Brasil mantêm em vigor os Acordos de Complementação Econômica ACE 53 e ACE 55. O ACE 53 concede preferências tarifárias a diversos produtos industriais e agrícolas. Ao mesmo tempo, o ACE 55 regula o comércio bilateral no setor automotivo.
Balança comercial
Vieira explicou que os acordos pertinentes do Brasil com o México fazem parte de uma série mais ampla de Acordos de Complementação Econômica. Ele também ressaltou que as exportações dos Estados Unidos para o Brasil aumentaram consideravelmente — quadruplicando seu valor — durante o mesmo período em que esses acordos estiveram em vigor.
Além disso, Vieira destacou que os Estados Unidos passaram de um déficit comercial de bens com o Brasil no início da década de 2000. Depois disso, passaram a obter superávits comerciais de bens sustentados nos anos subsequentes.
De fato, os Estados Unidos têm registrado superávit comercial de bens com o Brasil todos os anos desde 2008.
“Esses fatos enfraquecem substancialmente a tentativa do USTR de apresentar os acordos tarifários do Brasil com o México como uma fonte de prejuízo comercial para os Estados Unidos”, disse Vieira.
Indústria automotiva
Para o ministro, essa conclusão ganha ainda mais força no setor automotivo. Os acordos pertinentes entre o MERCOSUL e o México prevêem um tratamento preferencial para automóveis e peças automotivas. No entanto, a produção automotiva dos Estados Unidos e do México está profundamente integrada.
Muitas operações automotivas no México são de propriedade de empresas americanas ou mantêm laços estreitos com elas. Ao mesmo tempo, o México constitui um mercado de exportação fundamental para peças e componentes automotivos americanos.
Uma parte considerável do valor dos veículos mexicanos exportados para o exterior corresponde a componentes fabricados nos Estados Unidos. Nessas circunstâncias, segundo Vieira, o USTR não pode simplesmente presumir que as preferências concedidas às exportações automotivas mexicanas prejudiquem o comércio dos Estados Unidos.
Pelo contrário, Vieira destacou que a eliminação dessas preferências poderia afetar negativamente os interesses comerciais dos Estados Unidos ligados à produção automotiva e às cadeias de suprimentos no México.